“MARIA DO INGÁ”
Foi uma cabocla que apareceu nos sertões da Paraíba, nos tempos idos e suplicio das grandes secas descontroladas. Surgiu na cidade de Pombal e depois de viver ali por um período indeterminado, durante a seca de 1930, partiu numa leva a caminho de outras paragens, onde o céu fosse mais complacente e a terra menos desventurada. A juventude em flor, atraente e bonita, ela deixou um vazio enorme na alma apaixonada e saudosa dos caboclos que ficaram, entre eles, o pombalense Ruy Carneiro, na época, com aproximadamente 24 anos de idade.
A verdade é que antes de ficar apenas uma mulher na vida de Ruy Carneiro, outras, de forma discreta, também lhe despertaram paixões na recantada Pombal de antigamente. Entre outras mulheres, foi Maria do Ingá, com certeza, mais uma delas a despertar os sentimentos do sertanejo, que por muitos anos guardou no íntimo do coração a sutil recordação e a saudade de uma cabocla que se foi. Essa lembrança foi narrada em uma reunião informal, ocorrida no Rio de Janeiro em 1932.
Jaime Távora era secretário de José Américo de Almeida, Ministro de Aviação e Obras Públicas, também amigo comum do médico e poeta Joubert de Carvalho. Em um encontro casual num ônibus, se deslocando pelas ruas do Rio de Janeiro, Jaime sugeriu um novo encontro na casa do compositor, agora com a presença do Ministro e amigos. Sem acreditar e para surpresa de Joubert, à noite lá estava em sua residência: José Américo, o chefe de gabinete do Ministro, Ruy Carneiro, o próprio Jaime e outros amigos. Alegres e descontraídos, cantaram e ouviram os grandes sucessos já gravados de Joubert de Carvalho, a exemplo: Pra Você Gostar de Mim (Taí), De Papo Pro Á, Zíngara, Pierrô, entre outros. Depois dessa noite, Joubert tornou-se freqüentador do gabinete do Ministro, até porque queria um trabalho de médico no Instituto dos Marítimos, onde terminou conseguido e sendo mais tarde diretor do hospital. Em uma dessas visitas, conversando com Ruy Carneiro - que foi um grande seresteiro pombalense, sabia cantar e tocar violão muito bem - o futuro senador instigou o poeta a compor uma música que falasse sobre a seca no Nordeste. Joubert pensou na cidade de José Américo, tentou, mas ponderou achando que Areia não dava uma boa rima, voltou-se para Ruy e perguntou:
- Onde você nasceu?
- Nasci em Pombal, sertão da Paraíba. Daí começou a relatar as ocorrências das secas na região, a tristeza da devastação, a miséria, a leva dos retirantes, a dispersão das famílias, as Marias que partiam deixando saudades...
Onde a seca foi mais rigorosa? Ruy citou vários lugares da Paraíba, entre outros falou da cidade de Ingá, por lembrança de Maria.
- Então é Maria do Ingá.
Disse Joubert, que ali mesmo fez a junção das palavras que poeticamente tornou-se Maringá. E para deslumbramento de Ruy ele cantou pela primeira vez a canção que se tornou um verdadeiro hino para a cidade de Pombal, e que a faz conhecida, em grande parte do país, como a Terra da Cabocla Maringá. Há quem diga que Ruy colaborou na letra e música.
A CANÇÃO MARINGÁ
Foi numa leva
Que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante
Que mais dava o que falar
E junto dela
Veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse
De um caboclo que ficou
Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a maginá
Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar.
Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assussegar
Antigamente
Uma alegria sem igual
Dominava aquela gente
Da cidade de Pombal
Mas veio a seca
Toda a chuva foi simbora
Só restando então as águas
Dos meus olhos quando chora.
A GRAVAÇÃO - A gravação original foi feita em disco RCA Victor, por Gastão Formenti e orquestra sob a regência de João Martins, realizada em 13 de julho de 1932.
Carlos Galhardo, grande cantor da época, fez uma gravação em 1939 e outra em 24 de outubro de 1957, com a orquestra RCA Victor Brasileira.
Música concebida em estilo regionalista, Maringá, segundo pesquisadores, é uma criação pioneira, a primeira a tocar no tema seca, posteriormente tão decantada no nordeste e demais solo brasileiro. É considerada a mais expressiva das composições de Joubert de Carvalho, seu sucesso em rádio e disco foi tão grande que acabou por fornecer o nome a uma cidade do estado da Paraná.
A CIDADE - Uma empresa decidiu construir uma cidade, os operários trabalhavam cantando sempre a mesma canção, Maringá, isoladamente ou em grupos, quando se reuniam durante a noite, para amenidades do trabalho e lazer. Quando esses homens terminaram sua missão, a cidade estava pronta para receber suas leis, a terra a espera das sementes de café, trigo, arroz, milho, feijão.
O NOME - A senhora Elizabeth – inglesa, mulher de Henry Thomas, Presidente da Companhia – começou a falar: - Estão procurando um nome para a cidade? Pois há o nome de uma canção lindíssima: Maringá. Quando terminou de falar a solução estava clara e lógica, a cidade já tinha nome. A reunião dos diretores da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná – empresa que havia loteado todo o território maringaense – por unanimidade logo batizou a cidade com o nome Maringá. Um distrito criado em 10 de maio de 1947 e elevado a município pela Lei nº 190, de 14 de novembro de 1951, com área desmembrada do município de Mandaguari, no Paraná.
CONCLUSÃO - A canção Maringá foi uma magistral inspiração que homenageia a cidade de Pombal, o poema diz respeito à seca no sertão nordestino, sua gente, a saudosa retirante, poeticamente transformada em uma belíssima canção que o povo pombalense tem hoje como um verdadeiro hino, momento em que é sempre cantada nos grandes encontros dos filhos da terra.
No Estado do Paraná, tempos depois, nascia uma cidade onde os homens trabalhavam cantarolando a música, para mais tarde ser batizada com esse nome, ficando as duas cidades emanadas pela mesma canção. Primeiro, a cidade de Pombal, que ofereceu a história para inspiração poética, segundo, a cidade de Maringá, pela adoção do nome, apesar da grande distancia que a região tem com a realidade do sertão nordestino.
Joubert Gontijo de Carvalho - Nasceu no dia 6 de março de 1900, na cidade de Uberaba, Minas Gerais, filho do casal Tobias de Carvalho e Francisca Gontijo de Carvalho. Até os 13 anos viveu ligado ao campo, quando se mudou para São Paulo com toda a família, e fez o curso ginasial. Em 1920, Joubert seguiu para o Rio de Janeiro, a fim de estudar medicina. Na bagagem de seus 20 anos iam também 20 músicas. Com uma mesada do pai de 500 mil reis e 600 mil reis que recebia das editoras de músicas, Joubert viveu como estudante rico. Formou-se em medicina em 1925, casando-se com Elza Farias de Carvalho em 1927, nascendo o filho: Fernando Antonio. Joubert foi médico, músico e escritor, faleceu em 20/09/1977.
RUY VIEIRA CARNEIRO
Nasceu no dia 20 de agosto de 1906, na cidade de Pombal - PB, filho do rábula João Vieira Carneiro e Márcia Carneiro, conhecida como Sinhá Carneiro. Vindo para capital, estudou no Liceu Paraibano, casou-se com Alice Almeida em 1925, não tiveram filhos. Foi Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, em 1927. Alguns cargos que exerceu: Diretor do Jornal Correio da Manhã, Oficial de Gabinete do Ministro da Aviação e Obras Públicas, Deputado Federal–1935 a 1937, Advogado do Banco do Brasil, Interventor Federal do Governo da Paraíba–1940 a 1945, Senador eleito em quarto mandatos: 1950, 1958, 1966 e 1974. Ruy faleceu no dia 20/07/1977, foi sepultado em João Pessoa-PB, no cemitério da Boa Sentença, sendo acompanhado por mais de 50 mil pessoas, entoando a canção MARINGÁ.
Uma coincidência. Quando observamos a data do falecimento do senador e do poeta, verificamos que num intervalo de dois meses a canção Maringá ficou duplamente órfã. No entanto, essa canção, considerada o mais comovente hino à saudade do caboclo sertanejo, todavia, agora e sempre, será uma eterna lembrança no coração do povo pombalense, graças a Ruy e Joubert de Carvalho –
Nota sobre o autor: Verneck Abrantes de Sousa, nasceu em Pombal - PB, engenheiro agrônomo, pós-graduação (lato-Senso) em Irrigação e Drenagem, Agente de Inovação e Difusão Tecnológica e Agro-Negócio. Publicou os livros: A Trajetória Política de Pombal e Um Olhar Sobre Pombal Antiga participou da revisão crítica do livro O Velho Arraial de Piranhas (Pombal), de Wilson Seixas, com Evandro da Nóbrega e Jerdivan Araújo. É Assessor Regional da EMATER, Sindicalista e Conselheiro do CREA-PB).
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe Seu Recado Aqui.